Análise Principal

O dilema do Banco Central: inflação de serviços versus crescimento

Sofia Andrade · Editor-chefe · 28 jul. 2025 · 12 min de leitura

A decisão do Copom de manter a Selic em 10,5% foi unânime, mas o debate interno foi intenso. De um lado, a inflação de serviços — que continua acima da meta — exige cautela. Do outro, o crescimento econômico mostra sinais de desaceleração que preocupam.

Este é o dilema clássico de política monetária: apertar demais e matar o crescimento, ou afrouxar cedo demais e deixar a inflação se consolidar. O Banco Central brasileiro está navegando esse equilíbrio com mais habilidade do que os críticos reconhecem.

A inflação de serviços é o problema

O IPCA de serviços está em 6,8% nos últimos 12 meses — bem acima da meta de 3%. Isso reflete um mercado de trabalho aquecido: com desemprego em 6,8% (o menor desde 2014), os trabalhadores têm poder de barganha para negociar reajustes salariais acima da inflação. Esses reajustes se transmitem para os preços dos serviços.

"A inflação de serviços é a mais persistente e a mais difícil de controlar com política monetária. Ela responde a juros, mas com defasagem longa e de forma incompleta."

O custo do aperto monetário

Manter a Selic alta tem custos reais. O crédito fica mais caro, o investimento privado desacelera, e o consumo das famílias endividadas é comprimido. O crescimento do PIB em 2025 deve ficar em 2,4% — abaixo do potencial de 3%. Essa diferença representa empregos que não foram criados e renda que não foi gerada.

O Banco Central está ciente desses custos. Mas sua mandato é a estabilidade de preços, não o crescimento. E enquanto a inflação de serviços estiver acima da meta, o espaço para cortar juros é limitado.

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Sofia Andrade
Editor-chefe do TheNorthGuide. Economista pela USP, com doutorado em economia monetária pela LSE. Escreve sobre política monetária e economia brasileira desde 2012.